blog do Roberto Leite

Assuntos de interesses multiplos e atuais.

Eu e Kadhafi

Eu e Kadhafi

Eu realmente  vivi uma experiência, onde pessoalmente conheci Muammar Kadhafi .

Assim foi:

Corria o ano de 1986, eu trabalhava com gerente internacional de uma empresa norte americana no ramo de exploração e produção petróleo e gás.

O meu trabalho incluía às vezes resolver ou tentear resolver problemas relacionados aos nossos produtos nos campos de exploração ou produção.

Eu estava na Nigéria terminando de resolver um problema enorme em um campo de exploração de gás, onde existia no momento um vazamento em 400 poços produtores de gás.  A tubulação destes poços era de nossa responsabilidade, pois as roscas que uniam os tubos de produção eram de nossa fabricação.

Era um problema antigo, e várias pessoas da empresa haviam tentado solucionar em vão. Neste caso, eu pesquisei, e descobri que os fabricantes das válvulas de produção no fundo, do poço, continham roscas não compatíveis com os nossos tubos e estavam vazando.

Com muito custo, consegui que um dos poços fosse desativado e toda a tubulação de produção testada por vazamentos. Isto foi feito e se constatou que na junção entre as válvulas e os tubos de produção havia realmente um vazamento. Isto tirou a nossa responsabilidade sobre este campo.

Já era Abril de 1986, e eu estava terminado o meu relatório, no hotel em Lagos, capital da Nigéria, quando me telefonaram para ir para a Líbia resolver outro problema semelhante.

Embarquei para Trípoli, no dia 10 de Abri.  Chegando, estava à minha esperai um avião da empresa italiana de petróleo ENI, que me levaria a Ajdabyia que ficava a uns trezentos km de Trípoli.

Cheguei ao aeroporto de Agedabin, que servia à cidade de Ajdabyia.  Neste aeroporto, embarquei em uma caminhonete da empresa Agoco que me levaria ao campo de exploração a uns 400 km ao sul.

Chegando ao acampamento de exploração, consegui uma cabine com um engenheiro belga da empresa Slumberger.

Depois de uma conferência com o encarregado do acampamento sobre o problema de vazamento, comecei a recolher os dados e as referencias para estudar as possíveis causas.

Aproximadamente  uma semana depois de estar neste acampamento, pesquisando o problema existente ouve-se um tremendo ruído de uma grande aeronave, que poderia ser um helicóptero.

 Não era um somente um Helicóptero, mas sim quatro helicópteros militares, de fabricação russa, do modelo MI-5.

Os soldados fardados chegaram e reuniram todos os estrangeiros do acampamento, que eram uns 15, de todas as nacionalidades, e pediram os passaportes. Eu viajava com um passaporte americano e havia neste acampamento mais três engenheiros americanos.

 Fomos  convidados, os quatro a subir em um dos Helicópteros, sem maiores explicações e fomos levados para uma cidade litorânea chamada Brega.

Nossos pertences foram confiscados, e fomos interrogados várias vezes sobre espionagem americana.

Não sabíamos de nada, mas alguns dias antes, houve  um ataque aéreo à cidade de Trípoli, o palácio de Kadhafi havia sido atingido, e parece que havia falecido no ataque uma de suas filhas adotivas.

O ataque supostamente teria sido feito por aviões norte-americanos partindo da Inglaterra.

Teriam sido FB-111.

 Kadhafi então estava reunindo todos os ingleses e norte americanos para interrogá-los. Não nos maltrataram, mas havia um tremendo clima de hostilidade no ar.

Ficamos sem notícias e detidos por uns 15 dias, quando veio a notícia que iriam nos deportar do país e que um avião francês ia nos levar para a Europa. Éramos neste ponto uns 25 americanos e ingleses em Brega que fomos algemados pela primeira vez e postos em caminhões militares de transporte com destino a Trípoli.

Chegando a Trípoli, fomos encaminhados a um Hangar militar no aeroporto.  Este hangar estava danificado por algum bombardeio. Lá chegando encontramos mais uns 35 trabalhadores americanos e ingleses.

Estávamos todos algemados neste ponto. E ficamos esperando todo o dia sem comida ou água e sem permissão para ir ao banheiro.

À noite, chegou um Boeing 747 da Air France, e parou perto do hangar militar onde estávamos.

Fomos então arrastados para fora, e postos em fila deitados de cara para o chão.

Foi então que ele apareceu Kadhafi.  Estava com um dos braços em uma tipóia.

A sua ação, começou com os primeiros da fila que estavam deitados, e imobilizados por dois brutamontes.

Kadhafi de aproximava da pessoa, falava algo em árabe e chutava brutalmente esta pessoa. O individuo então, com muitas dores era arrastado para o avião da Air France.

No pé da escada para o avião, as algemas eram retiradas, e funcionários da Air France ajudavam os feridos a subirem para a aeronave.

O ritual se repetiu com todos os estrangeiros e eu fui um deles que tive três costelas quebradas pelos pontapés de Kadhafi.

Dentro do avião fomos recolhidos carinhosamente por enfermeiras e médicos franceses,  e tratados das lesões. Houve alguns dos prisioneiros, que ficaram gravemente feridos pela ação de Kadhafi. Eles me contaram que os últimos foram os piores, pois Kadhafi ficou cansado de bater, e mandou seus asseclas terminarem o trabalho, e eles eram ainda mais violentos. Neste caso eu me considerei com sorte, pois era dos primeiros da fila. O Avião partiu sem problemas com destino a Paris.

Este foi o primeiro e único encontro que eu tive com Muammar Kadhafi, que faleceu brutalmente hoje nas mãos de seu próprio povo.

De minha parte fico por aqui pensando que ele dois anos mais velho do que eu, morreu violentamente da mesma forma em que viveu.

 Eu continuo vivo, porém com as três costelas que cicatrizaram, mas desalinhadas e tortas, como resultado dos pontapés de Kadhafi.

Outra coisa interessante deste episódio, nada disto foi publicado na mídia. Um mistério.

Recuperando em Paris, eu soube por informação pessoal que houve um acordo mediado pela França e Itália para o retorno dos prisioneiros ingleses e americanos na Líbia. As notícias que eu tive foi que Kadhafi tinha planejado matar estes cidadãos em retaliação ao ataque americano, mas foi convencido a soltá-los, pois as conseqüências poderiam ser muito piores. Nossa sorte que Kadhafi teve juízo neste episódio e ouviu os mediadores franceses e italianos.

No inicio de 1987, devido a uma crise econômica, a empresa onde eu trabalhava foi reestruturada e reduzida em tamanho para tentar sobreviver à crise e eu perdi o meu emprego nesta reestruturação.

21 out 2011 - Posted by | CRONICAS

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