Uma ficção dantesca!
Uma ficção dantesca!
Outro dia recebi por Email, uma carta entrevista, no formato Power Point da Microsoft, em que um reporter sem nome entrevista o criminoso Marcola.
Era uma entrevista impressionante, com recheios de realidade e fantasia erudita, coisa que eu duvido muito que seja da capacidade mental do Marcola.
Especialmente o final em Latim.
Surpreso pela possibilidade de ser real esta entrevista, eu pesquisei na internet, e descobri que era uma obra de ficção do colunista e cineasta Arnaldo Jabor, mostrando no formato Orson Wells (A Guerra dos Mundos), o desmando e a realidade da sociedade brasileira, quando joga para debaixo do tapete os problemas imediatos e colhe em futuros bem próximos os frutos desta opção.
A educação, por exemplo, está totalmente desprestigiada. Seja ela qual forem pública ou privada, nossos alunos estão cada vez menos conscientes da realidade.
Para ser coerente com a atual realidade o governo deveria aplicar no mínimo 20% do PIB para a educação. (Coréia do Sul, Chile, Argentina, Índia, Rússia, e China, investem pelo menos 10% do PIB em educação) (A Coréia vem investindo 23% do PIB por mais de 25 anos)
Destes 20%, deveria ir para a educação Elementar, Básica e Secundária a maioria destes recursos.
A educação superior gratuita e totalmente financiada pelo governo deveria ser abolida a favor de uma educação paga, com as escolas produzindo recurso, pois seus laboratórios têm esta capacidade.
As escolas de medicinas podem ter seus próprios hospitais pagos ou em convênios mais baratos, mas deveriam ser auto-suficientes.
As escolas de engenharia poderiam ter seus laboratórios de pesquisas fazendo pesquisas para a indústria privada.
E por aí vai. As escolas primárias, não podem gerar recursos e devem ser custeadas com os impostos pagos pelo cidadão.
No Brasil as universidades públicas consomem 80% da parca verba da educação, que não passa de 5% do PIB.
Em contrapartida a Bolsa Família consome mais de 10% do PIB. E não ensina a pescar, é pura assistência permanente tipo esmola. E sem contrapartida. O único requisito é praticamente estar desempregado.
Quando foi criada no governo FHC tinha a finalidade de manter na escola os menores de idade.
Para freqüentar escolas, primeiro é preciso ter escolas, professores, merenda.
Não tendo escolas decentes, como vamos obrigar os alunos a freqüentarem?
Esta inversão de coisas no Brasil de deve exclusivamente ao fato de que os alunos das escolas primárias e secundárias, não podem votar e os universitários votam. Portanto os políticos em sua conhecida demagogia dão preferência para as leis que podem ajudar os alunos universitários.
Eles se esqueceram de que a base da universidade é simplesmente o ensino elementar e secundário. E sem uma base boa, a descriminação é maior, a ignorância maior e o despreparo para uma realidade atual é muito grande.
Os testes de conhecimento internacionais e nacionais mostram como andamos em comparação com o resto do mundo.
Quando não se dedica muito esforço para a educação, a sociedade fica segregada e despreparada.
Reflete em tudo na vida. O lixo nas ruas, os pequenos furtos, as pichações, que são pequenos delitos, que são admitidos por falta de educação, que se migram para delitos mais graves, que se migram para o crime organizado como na ficção do Jabor.
Vou reproduzir a ficção do Jabor e depois dois comentários a respeito desta ficção:
http://portal.an.uol.com.br/2006/mai/23/0opi.jsp
Artigos
Estamos todos no inferno Entrevista ao Jornal O GLOBO por “Marcola”
Arnaldo Jabor jornalista e cineasta
a.j.producao em uol.com.br
- Você é do PCC?
- Mais que isso, sou um sinal de novos tempos. Era pobre e invisível… Vocês nunca me olharam durante décadas… E antigamente era mole resolver o problema da miséria… O diagnóstico era óbvio: migração rural, desnível de renda, poucas favelas, ralas periferias… A solução é que nunca vinha… Que fizeram? Nada. O governo federal alguma vez alocou uma verba para nós? Só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a “beleza dos morros ao amanhecer”, essas coisas… Agora, estamos ricos com a multinacional do pó. E vocês estão morrendo de medo… Somos o início tardio de vossa consciência social… Viu? Sou culto… Leio Dante na prisão…
- Mas…a solução seria…
- Solução? Não há mais solução, cara… A própria idéia de “solução” já é um erro. Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio? Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? Solução como? Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma “tirania esclarecida”, que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir?; se bobear, vão roubar até o PCC…) e do Judiciário que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do País, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (fazer até conference calls entre presídios…) E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria uma mudança psicossocial profunda na estrutura
política do País. Ou seja: é impossível. Não há solução.
- Você não tem medo de morrer?
- Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar…mas eu posso mandar matar vocês lá fora… Somos homens-bomba. Na favela tem 100 mil homens-bomba… Estamos no centro do “Insolúvel”, mesmo… Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira.
Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração… A morte para nós é o “presunto” diário, desovado numa vala… Vocês intelectuais não falavam em “luta de classes”, em “seja marginal seja herói”? Pois é: chegamos, somos nós! Há há… Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né?
Sou inteligente. Leio, li 3 mil livros e leio Dante…mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto deste País. Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade. Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feita “com autorização da Justiça”? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo.
- O que mudou nas periferias?
- Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem 40 milhões de dólares como o Beira-mar não manda? Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório… Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado?
Somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no “microondas… há,há… Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes.
Temos métodos ágeis de gestão. Vocês são lentos e burocráticos. Lutamos em terreno próprio. Vocês em terra estranha. Não tememos a morte. Vocês morrem de medo.
Somos bem armados. Vocês vão de “três oitão”. Estamos no ataque. Vocês na defesa. Vocês têm mania de humanismo. Nós somos cruéis, sem piedade.
Vocês nos transformam em superstars do crime. Fazemos vocês de palhaços. Somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. Vocês são odiados.
Vocês são regionais, provincianos. Nossas armas e produto vêm de fora; somos globais. Não nos esquecemos de vocês; são nossos fregueses. Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.
- Mas o que devemos fazer?
- Vou dar um toque, mesmo contra mim. Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas.
Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana? Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas… O País está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, “Sobre a Guerra”. Não há perspectiva de êxito… Somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas… A gente já tem até foguete antitanques… Se bobear, vão rolar uns Stingers aí… Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas… Aliás, a gente acaba arranjando também “umazinha” daquelas bombas sujas mesmo… Já pensou? Ipanema radioativa?
- Mas…não haveria solução?
- Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a “normalidade”. Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer uma autocrítica da própria incompetência.
Mas vou ser franco…na boa…na moral… Estamos todos no centro do “Insolúvel”. Só que nós vivemos dele e vocês…não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela.
Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê? Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. Como escreveu o divino Dante: Lasciate ogni speranza voi che entrate! Percam todas as esperanças. Estamos todos no inferno.
…………………………………………….
PURA FICÇÃO
Ainda sobre a entrevista do pseudo-Marcola
Por Olívio Tavares de Araújo em 18/7/2006
Sinal dos tempos e da sina brasileira. Antigamente usávamos o adjetivo pseudo para textos clássicos aos quais durante algum tempo se atribuiu uma autoria que depois se verificou ser falsa: o pseudo-Plutarco, o pseudo-Plotino. No Brasil temos agora o pseudo-Marcola. Também eu fui vítima dessa confusão internética que – nunca descobriremos como, com que objetivos nem por quem – atribuiu ao bandido Marcola uma apocalíptica entrevista em O Globo. Agora sabemos que no original foi obra de ficção de Arnaldo Jabor – como tal, brilhante, irretocável. Inclusive nas improváveis mas afinal convincentes provocações estéticas. O pseudo-Marcola é quase um poeta: “Meus comandados … são fungos de um grande erro sujo”. “Chapeaux bas, messieurs!” – como disse Schumann diante de Chopin.
Entretanto, enquanto acreditei que a entrevista fosse verdadeira (felizmente, não mais que algumas horas), o que mais senti foi tristeza e medo. Tanta inteligência, tal precisão na anamnese e diagnóstico, domínio tão absoluto da palavra, conhecimento de causa, do ser humano e da história, porém num desesperado, convicto de que não existe solução e de que o inferno neste país é inevitável: seria esse, enfim, o nosso destino de líder revolucionário? Mas para os verdadeiros líderes revolucionários a esperança não constitui pré-requisito? Ademais um líder, lembremos, confessadamente criminoso e cruel, capaz de qualquer ato em função de seus propósitos, que reconhece mandar liquidar e colocar no ‘microondas’ as peças ineficientes de sua máquina de droga e morte? Um hitlerzinho porém com o sinal trocado – porque fundado em verdades?
Tiro errado
Tive tristeza e medo. Medo de classe? Um pouco, sem dúvida. Nunca passei fome. Financiado por meu pai, pude aprender inglês, francês, espanhol, italiano. Acabo de ser curador de uma exposição das obras caríssimas de Volpi num museu cuja presidente é banqueira, ouço com gáudio Mozart, Beethoven, Brahms, Schubert, Corelli, e estou relendo Anna Akhmatova e Konstantinos Kaváfis, este na impecável tradução de José Paulo Paes. Tudo isso certamente não me credenciaria a ser querido num futuro Estado pseudo-marcolês. Sou um intelectual brasileiro, essa categoria que o pseudo-Marcola tão percucientemente ironiza: “Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em ‘seja marginal, seja herói’? Pois é: chegamos, somos nós!” (Em tempo: enquanto grito de guerra, “seja marginal, seja herói” nunca me pareceu senão a imbecilidade que é, e que só transitou incólume porque durante a ditadura militar talvez não fosse mesmo de boa tática investir contra ele).
Ah, sim, ia-me esquecendo: sou também – ou pelo menos me considero – de esquerda. Quem sabe, então, não deveria ficar mais tranqüilo – já que a esquerda, supõe-se, seria a aliada histórica natural do pseudo-Marcola?
Ah, não, infelizmente essa ingenuidade já não tenho. Nada, nem no discurso do pseudo-entrevistado nem na lição do passado, me permite supor que, por ser de esquerda, eu seria poupado. Ser ou não de esquerda não iria servir a ninguém para nada. Na implantação do estado pseudo-marcolês não haveria tempo para questões de justiça, aliança, lealdade, princípios, ideologia – essas inúteis sutilezas de classe dominante. Assim como, garanto-lhes, não houve tempo para que Hitler e sua tchurma examinassem prévia e criteriosamente a lista dos mortos no expurgo de Roehm. Foi como deu, e pronto. Nessas, o crítico musical Willi Schmidt levou um tiro enquanto tocava seu violoncelo, antes que o executor percebesse que o nome na lista não era exatamente aquele. Havia uma diferença de um L e um D a mais ou a menos, uma coisa qualquer, assim. Uma pequena distração. E o Willi errado se foi.
O holocausto dos intelectuais humanistas
Voltando um pouco atrás. Resta outra hipótese. Quem sabe não valeria a pena o holocausto de minha classe, dos intelectuais humanistas e iludidos como eu – animais pré-históricos, diante dessa “terceira coisa crescendo aí fora, cultivada na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias”, com toda propriedade (e de novo alguma poesia) descrita pelo pseudo-Marcola? Quem sabe não valeria a pena imolar tanto esquerdas como direitas, às tontas e às cegas, com a solene indiferença de um deus bárbaro, em prol do novo Estado pseudo-marcolês?
Mas será que temos motivos para crer que ele seria melhor e mais justo? Revoluções muito mais bem nascidas deram no que deram. Os 50.000 guilhotinados da Convenção deram em Napoleão, que deu nos 3,5 milhões de mortos do 18 de Brumário ao Grand Empire, que deu no Congresso de Viena, na reorganização reacionária da Europa, na restauração dos Bourbon na França, e na maravilhosa frase de Talleyrand sobre eles – que, essa sim, valeu a pena: “Não aprenderam nada, não esqueceram nada”. Lênin, coitado, deu em Stalin, que entre as repressões no campo, os expurgos e o Gulag parece que ultrapassou a marca dos 39 milhões de assassinados. Por enquanto o verdadeiro Marcola e o PCC não chegaram sequer às centenas. Mas se Marx tiver razão quanto à história se repetir como tragédia, antes de repetir-se como farsa…
Há alguns dias, neste mesmo Observatório da Imprensa a psicanalista Anna Verônica Mautner, uma criatura adorável, afirmou da pseudo-entrevista [ver remissão abaixo]: “Amei”. Declarou-a “maravilhosa”, e diante de sua apocrifia lamentou: “Queríamos todos que fosse verdade”. Todos quem, cara-pálida? Eu não, querida Anna Verônica. Não amei coisa nenhuma – e que maravilha que tudo era mentira! Estou agradecendo a Deus porque o pseudo-Marcola não existe. E a Arnaldo Jabor por toda a penosa mas excitante experiência.
“ENTREVISTA´´ DE MARCOLA
Onde começa e onde termina o virtual
Por Anna Veronica Mautner em 27/6/2006
Um belo dia, há duas semanas se muito, começou a aparecer entre meus e-mails, vindo de conhecidos e também de conhecidos de conhecidos, um texto de três páginas que continha – segundo o título – uma entrevista realizada por um repórter da Globo, anônimo, com o prisioneiro Marcola.
Confesso que fui tomada por um mecanismo que na psicanálise é chamado “mecanismo de negação”. Isto é, apaguei o fato de ter estranhado que uma entrevista tão importante não tivesse o nome do jornalista que a tivesse realizado. Preferi não acreditar nesta minha observação que mais tarde, como veremos, teria tudo a ver.
Li e reli a entrevista. Amei. Entre surpreendida e estonteada, andei dias com o papel na mão. Como eu sou analfabeta em máquinas e não sei usar o “encaminhar”, só sei usar o “responder” e o “imprimir” – a corrente parou na minha mão. Outros, mais hábeis que eu, continuaram espalhando a entrevista pelo mundo afora. Conversei até não mais poder a respeito do significado de tão maravilhosa entrevista, de tantas respostas pertinentes e argutas.
Quando já parecia estar passando o efeito, eis que me chega na forma de comunicado: a entrevista chegando às mãos de determinado jornalista, parou. Este esclareceu a uma de minhas amigas da corrente que o tal texto era da lavra de Arnaldo Jabor. Este meu amigo, Jabor, tinha inventado uma entrevista fictícia para sua coluna semanal. As perguntas e as respostas eram da lavra dele.
Criação de diálogos
O que de fato me deixou perplexa, me aturdiu, foi que todo um grupo de brasileiros, urbanos, alfabetizados, nível superior, gente do mundo, gente nada ingênua, tenha aceito que a produção intelectual de Jabor poderia ter sido gerada por Marcola que vive, sempre viveu, em um outro universo onde vigoram outros parâmetros e conceitos. Se fosse de verdade, com certeza teria o nome do entrevistador e ainda teria tido seguimento da imprensa.
Dias depois, encontro pessoalmente com Jabor, que tinha ouvido falar de uma certa entrevista do Marcola que estaria circulando, mas ainda não tinha chegado até ele. Ele confessou que não imaginou que se tratasse de sua própria obra de ficção. E assim se fechou a corrente.
Uma dramaturga disse que poderia ter desconfiado, pois a entrevista era obra de alguém afeito à criação de diálogos. Muita gente, pelo visto, estranhou. Contudo, queríamos todos que fosse verdade.
Por quê? Ainda não tenho resposta.
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