Melhor do que um sonho
Melhor do que um sonho
Têm coisas na vida que te enchem de prazer.
Não há dinheiro no mundo que possa comprar a felicidade de ler de vez em quando algo bem bolado e bem escrito por alguém por quem você tem enorme carinho e admiração.
Estes momentos na vida de uma pessoa são as ilhas de felicidades na vida atual onde diariamente os veículos noticiosos trazem notícias que envergonham e fazem ter vergonha de compartilhar a raça humana com esta canalha da política, dos lobistas do cinismo, com os invasores de terra, com os impunes, com os crápulas, com os Renans, com os Jaders, com os Malufes da atualidade.
O meu sobrinho José Melo, http://traveler.com.br/blogs/ze/ teve esta idéia de um encontro entre o Hugo Chávez e o Gorbachev. Um encontro fictício evidentemente, mas baseado na história atual, e nas possíveis conseqüências da política venezuelana. Comentou comigo esta idéia e queria que eu escrevesse, mas recusei e dei toda a força e realmente achei a idéia excelente.
Encontrei hoje no meu email esta história, que foi escrita por ele, com pesquisa feita por ele e que poderia realmente ter acontecido, da exata maneira descrita por ele.
Quero compartilhar com vocês:
Um encontro de peso
Por José Melo
Era uma manhã tranqüila, todos no porto de Vladivostok começavam sua rotina – fiscais, pescadores, estivadores, patrões e funcionários, tudo funcionando como uma máquina.
Exatamente às 8:30, Gorbachev percebe a chegada pontual de seu ilustre convidado à mesa de café da manhã. Há muito tempo o último líder Soviético vinha observando a movimentação política de Hugo Chavez na América Latina e decidiu convidar o presidente Venezuelano para um bate-papo bem longe do calor latino.
Eis que o destino me proporcionou acesso exclusivo a esse memorável encontro e aquí lhes ofereço, com exclusividade, uma transcrição fiel do que vi e ouvi.
- “Bom dia, comrade Gorbachev, como está o Senhor?”
- “Bom dia, estou bem, obrigado. Sente-se, Chavez. Não vamos perder tempo – vou direto ao assunto : quero lhe falar sobre o que você está fazendo na Venezuela. Meu governo não me pediu para termos este encontro, é iniciativa minha, e nada do que eu lhe disser reflete a posição da Rússia.”
Acostumado aos floreios típicos de encontros de presidentes latinos, Chavez viu-se perplexo diante da abordagem sem rodeios do velho líder comunista.
- “O Sr. Gorbachev não me convidou para um sermão, foi?”
- “Não é bem um sermão, Chavez. Eu lhe chamei para tirar algo que trago no meu peito há um bom tempo, me persegue, em minha mente, é preciso que lhe fale do que vejo na América Latina e lhe dar um parecer histórico do que penso. Não se ofenda, é para lhe sugerir, sim, uma mudança de curso.”
- “Bem, nesse caso, não tenho tempo para isso Sr. Gorbachev. Reconheço sua estatura política e respeito seu prestígio em todo o mundo, mas sinceramente, o Sr. já viu em 2 eleições que seu povo não lhe quer mais, se sentem traídos, e veja o que meu povo diz sobre mim, comrade. Tenho 60% de aprovação, fúi re-eleito pela maioría e continuo resistindo às pressões dos Estados Unidos como o Sr. talvez não tenha resistido. Peço licença mas devo voltar aos trabalhos.”
- “Que trabalhos, Chavez? Vai devolver a Venezuela à 1917 e fingir que nós já não tentamos o que você está fazendo em seu país? E sobre as eleições, meu povo votou, ou deixou de votar em mim, após um período de 72 anos de partido único. Temos nossos problemas na Rússia, como você tem em seu país, mas não compare a dimensão das coisas. O não-voto em mim significava a desaprovação da forma brusca com que a abertura se deu, fora de meu controle. Meu povo não me odeia, olhe em volta de você, há apenas um agente me protegendo e ando assim por todo meu país. A abertura fugiu de meu controle, mas eu não fúi culpado por tudo. Há alguns dias morreu um dos verdadeiros culpados pela abertura brusca na Rússia, a Yeltsin, sim, você poderia ter dito o que tem a dizer sobre a abertura violenta que vivemos em 1991, não a mim. Você atendeu a meu convite, e eu lhe agradeço. Acho que não devia perder a viagem. Mas se quiser, vá em paz.”
Os dois fizeram um curto silêncio, como se medissem a estatura de cada um. Chavez viu-se diante de um ex-presidente de super-potência, Prêmio Nobel da paz, que o convidara para uma conversa pessoal, reservada. Chavez não podia virar as costas e retirar-se do encontro. E Gorbachev não escondia sua inquietação, ele quase literalmente bateu com o sapato na mesa.
Antes que Chavez respondesse, Gorbachev prosseguiu, calmamente. Como quem dá uma aula a um aluno precipitado. Pausadamente, a cada palavra detinha-se com olhar fixo em Chavez, para ver se o Venezuelano iria embora do encontro.
- “Eram outros tempos. Tínhamos outra visão do mundo, estávamos decididos a mudar o mundo como ninguém jamais havia tentado. Desafiamos o Czar, a Igreja Católica, os Judeus, os Protestantes, questionamos a existência do Estado, desafiamos o poder da Rainha da Inglaterra e todos seus territórios, de fato desafiamos todas as Coroas, questionamos o Capitalismo, o Fascismo e o Nazismo – tudo de uma vez só. O movimento Bolchevique russo foi o mais atrevido da história, ninguém ousou mais que nós. Eu nasci após a revolução, fui o último líder Soviético e o primeiro deles a ter nascido após a 2a revolução em Outubro de 1918. Eu não conheci Lênin, e talvez por isso tive uma visão diferente de meus antecessores. Eu sabia já entre meus 20 ou 30 anos de idade que era preciso mudar algo, mas eu nunca soube ao certo o que mudar.”
O presidente da Venezuela sentou-se em meio à fala de Gorbachev. E apenas ouviu, com expressão sóbria e concentrada, um raro momento público em que não se mostrava sorridente ou comunicativo.
- “Quando ingressei no Partido Comunista da União Soviética, em 1952, eu tinha 21 anos. Eu criticava veladamente a dureza do regime de Stalin, apenas a amigos mais próximos, porém jamais duvidei de que estávamos no caminho certo e que o ocidente estava completamente errado. No ano seguinte explodimos nossa primeira bomba-H e a URSS tornou-se uma superpotência nuclear. Era um motivo de orgulho para todos nós saber que não podíamos mais ser destruídos pelo poder militar americano. Éramos soberanos, éramos, afinal, uma potência mundial.”
“Foi então nos escalões do sistema político Comunista que comecei a fazer certas críticas a nossa burocracia. Éramos menos ágeis que o ocidente. Precisávamos copiar determinadas tecnologias do ocidente, em especial os rápidos avanços na informática, sem os quais ficaríamos atrás dos americanos e teríamos imensa dificuldade com a formação de nossa juventude no futuro. Manter-nos atualizados no ramo de tecnologia era essencial. E foi uma luta, uma verdadeira guerra fria. Interceptávamos lotes de chips Intel que haviam sido deliberadamente adulterados pela empresa em parceria com o serviço secreto dos EUA, tínhamos que fazer engenharia reversa de tudo para construir algo útil com aqueles chips. E o embargo financeiro! Isso sim me leva ao assunto do dia: Cuba.”
“Fidel Castro é um homem decente. É autêntico. Advogado, desportista, Fidel teve uma formação de elite, porém viu que seu País estava afundando sob Fulgêncio Batista. E decidiu que a luta armada era o caminho. Ele não era um Comunista de formação, penso que sequer por convicção. Mas meu antecessor, Nikita Khruschev, teve por Fidel um carinho e uma consideração que Kennedy não teve. E foi assim que a Revolução Cubana de 1959 se uniu a nós, e tornou-se um espinho para os EUA. Nós enviamos a Cuba o que tínhamos de melhor em termos bélicos, em termos de engenharia e em termos de endosso político. Atacar Cuba significava atacar a Rússia, pode haver um endosso político maior que esse? Nós enviamos a Cuba nossos melhores pilotos e nossos mísseis mais poderosos.”
Chavez apenas concordava, hora acenava, hora tomava um pouco de seu café. Falando do ambiente como um todo o que mais me impressionava era o respeito do líder Venezuelano pelo Prêmio Nobel da Paz de 1990, me impressionou como Gorbachev domou a situação com dignidade e sem ofender a Chavez. A coisa tomou jeito de aula, o velho falava e Chavez ouvia.
Gorbachev hora expressava-se com as mãos, hora as mantinha juntas – sempre sério, sempre com a convicção com a qual se dirigia a Ronald Reagan ou a George Bush Sr. Mas sua figura já velha mais lembrava a de um avô que gostaríamos de ter e ouvir, não aparentava ameaça qualquer. Ambos estavam sentados em cadeiras brancas, de ferro fundido em formas de flores, cobertas com 2 finas almofadas, diante de uma farta mesa de desjejum na varanda de um simples hotel na Rua Fokin. A cadeira de Gorbachev estava alinhada na direção de Hugo Chavez. Até a linguagem corporal do líder russo já mostrava seu domínio da situação, e é isso que anotei em minhas observações.
Gorbachev não esconde seu ufanismo, demonstra orgulho da Rússia a cada frase, a cada trecho histórico que relata. O que percebo é que este homem pode ter perdido algumas batalhas políticas com seu povo, mas ele jamais deixou de amar a Rússia.
- “Chavez, a revolução de Fidel foi autêntica. E foi autêntica justamente pelo período histórico em que ocorreu. Em diversas ocasiões após o fim da chamada Guerra Fria, eu pensei comigo mesmo : ‘quantos exageros cometemos em nome da supremacia’. Meu antecessor invadiu o Afeganistão e coube a mim, quase 7 anos depois, arcar com o ônus político de bater em retirada. Podíamos ter destruído completamente as guerrilhas treinadas pelos EUA, mas nossa situação política era frágil em casa. Eu havia iniciado os trabalhos com a Glasnost e Perestróica, havíamos liberado o uso de máquinas Xerox em Moscou, os estudantes de jornalismo começavam a fazer jornalismo de verdade! Pela primeira vez abri o Pravda e li uma crítica a nós. Sempre fomos intocáveis, sempre fomos perfeitos e lá estava um estudante nos criticando e afirmando que ou fazíamos reformas profundas ou nosso império entraria em colapso. A previsão fatídica, feita por mais de 1 estudante, se revelou verdadeira.”
“Minhas reformas foram como uma reação nuclear impossível de se interromper. As filas para obter o pão e leite estatais se tornaram cada vez mais ridículas conforme as imagens dos Target, Kmart e WalMart americanas se tornavam disponíveis para nosso povo. Estávamos lutando para liberar o uso de máquinas fotocopiadoras e o mundo ocidental já proporcionava a seu povo editores de texto caseiros que tornavam possíveis a publicação de livros sem sair da casa.”
“Os excessos de alguns de nossos fundadores também se tornaram públicos, assim como a realidade econômica que muitos de meus companheiros de Partido jamais gostariam de ter visto divulgadas. Os números indicavam que nosso gigante Soviético estava falido. Sabíamos que os EUA também estavam em profundas dificuldades financeiras devido à política Reagan. A verdade é que a Guerra Fria trouxe grande prejuízo financeiro para todos.”
“E hoje, qual o sentido de promovermos uma nova Guerra Fria? Fiz críticas abertas ao sucessor de Yeltsin, disse em entrevista recente que Putin está retrocedendo no caminho à democracia plena na Rússia. E por que eu falo isso? Porque amo meu povo e meu país. Sei que a abertura de 1991 foi dolorosa, e não foi no ritmo que eu queria. Mas ela era necessária. Foi um mal necessário, foi uma ruptura necessária com uma ideologia na qual nosso povo já não tinha fé como antes. No fim estávamos promovendo ídolos e fé, igualzinho às instituições que nos propomos a destruir. Foi a hora certa de admitirmos nossos erros, e o povo fez o resto. Eu não impedi a queda do muro e as repetidas declarações de independência com nosso poderio bélico como fizeram os Chineses. Eu deixei o povo reinar.”
“Chavez, você tem que saber que nosso sonho Comunista jamais morreu. Mas hoje é preciso saber que o fim não justifica os meios. Não podemos realizar o sonho comunista à custa das vidas de milhões de pessoas.”
“Você compra nossas armas, mas deve saber que nós as tínhamos em 1953 na Coréia, nós tínhamos o sistema antiaéreo mais moderno da história quando os EUA tentavam sobrevoar nosso território com aviões A12 e U2, inclusive derrubamos um. Em 1972 nós acreditávamos termos rompido o balanço estratégico de destruição mútua assegurada, a União Soviética tinha o maior arsenal bélico jamais acumulado por qualquer império. E de que nos serviu? Fomos aos poucos corroídos pela política. Jamais nos deram um só tiro, nunca sofremos um disparo, e toda nossa estrutura teve que ser mudada pelo simples fato do povo não aceitar mais passar por tantas restrições em nome de uma ideologia.”
“Chamei-te aqui hoje para te dizer que não importa quantos AK-47 você compre, não importa quantos meios de censurar seu povo você…”
Mikhail Gorbachev é subitamente interrompido por Chavez.
- “Espere Senhor, há aí um julgamento de minha política que não está de acordo com o que estamos fazendo. Nós estamos educando médicos, fortalecendo nossas forças armadas, estamos nacionalizando aquilo que pertence ao povo da Venezuela. Não estamos nos armando para um confronto com os EUA ou qualquer outro país, mas sim para garantir a soberania Venezuelana.”
- “Eu entendo. O anseio por um País soberano e que pode se defender é legítimo” – respondeu Gorbachev
“No entanto suas ações vão à contramão disso que você procura para seu país. O caminho que decidiu tomar não levará à soberania Venezuelana, e sim ao confronto inevitável com os EUA, e com as Nações Unidas e todos os órgãos criados para evitar que um país tenha poder discricionário para intimidar o mundo..”
- “Nós não queremos intimidar ninguém, nem poderíamos, é questão de defender…”
- “Defender seu povo seria você estabelecer um prazo finito para seu mandato, dar poder ao legislativo e ao judiciário, que devem ser sempre independentes. Defender seu povo seria fortalecer sua posição nas Nações Unidas e deixar de lado a retórica ofensiva que tem adotado contra os Estados Unidos.”
“Em 72 anos de União Soviética nós tivemos poder para destruir os Estados Unidos, e talvez nos auto-destruirmos no processo, durante 28 anos. Algumas vezes os EUA ficaram sem comando durante algumas horas, como no assassinato de Kennedy. Não nos aproveitamos disso, pelo contrário, o assassinato de John Kennedy foi péssimo para a União Soviética. E nesses 28 anos vivemos tensões imensas, políticas e militares. Hoje a Rússia está num caminho mais seguro, mantendo suas forças estratégicas porém buscando uma discussão política. Você pode ver um desentendimento político entre Putin e Bush, mas não verá baixaria de qualquer lado. É questão de sobriedade hoje saber que Bush e Putin tem poder limitado para mudar o curso de seus países. Não se pode chamar o Bush de demônio e esperar algo construtivo disso.”
“Você não fará na Venezuela uma revolução como a de Fidel, pelo simples fato de já estarmos meio século além dos tempos da Revolução Cubana. Hoje as coisas são muito diferentes, estamos vivendo tempos diferentes. Eu ajudei a fundar o partido Social-Democrata na Rússia, porque o partido Comunista não mais refletia os anseios do povo russo no século XXI. Temos problemas para criar uma cultura democrática mais forte na Rússia, o povo precisa se acostumar após 72 anos de um partido único no poder. Mas estamos firmes nessa direção. Temos nossos problemas, mas repito, estamos firmes nessa direção.”
“Desejo a você muita sorte, e para seu povo muita paz e progresso. Eis o que tinha para lhe dizer. Não embarque em ilusões revolucionárias em pleno século XXI. Cultive o trabalho e a paz, e seu povo sairá adiante. De outra forma, tenho certeza que a Rússia ficará muito feliz em lhe vender bilhões de dólares em armamentos, mas saiba que já trilhamos esse caminho e você terminará, como disseram de nós, debochadamente, nos anos 70 : um país que tem forças armadas de primeiro mundo numa sociedade de terceiro mundo.”
Não aparentando nem um pouco convencido, ou sequer tocado pela longa conversa com Mikhail Gorbachev, Chavez limitou-se a uma lacônica despedida. A impressão que deixou é que não mudará nada em sua política em função desta conversa.
- “Eu agradeço sua intervenção Presidente Gorbachev. Certamente levarei comigo suas palavras, e terei enorme cuidado ao avaliá-las, e medi-las de acordo com a realidade de meu País.”
- “Eu conheço a realidade de seu País. Você não está isolado do mundo.”
- “Novamente, obrigado pela intervenção Senhor Presidente. Meus cordiais cumprimentos e votos de paz para o Senhor Com sua licença.”
Chavez levantou-se, desviando sutilmente do agente da FSB, extinta KGB, que faz parte da proteção pessoal do ex-líder Soviético. Chavez, por sua vez, acompanhado de comitiva que incluía vários seguranças e assessores, limitou-se a acenar, de forma geral e impessoal, para as 5 ou 6 pessoas que assistiram ao encontro.
A não ser pela presença do agente de quase 2 metros de altura, Mikhail Gorbachev estava sozinho, ele era sua própria equipe.
Este encontro foi, e será mantido em segredo. E você não lerá sobre ele na imprensa.
Foi-me dada permissão para transcrever esta conversa fictícia e publicar neste blog. Qualquer semelhança dos atores é mera invenção minha.
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