blog do Roberto Leite

Assuntos de interesses multiplos e atuais.

O fundo do poço.

O fundo do poço.

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Bater sempre nas mesmas teclas, denunciando o óbvio e dizendo as mesmas coisas sobre as mazelas do Brasil, leva a leitura de tudo isto a uma situação de tédio porque realmente as pessoas comuns já sabem disto tudo e ninguém realmente gosta de ser relembrado o tempo todo de que estamos em um beco quase sem saída.

Quase!!!!!

Se uma pessoa for vítima de um conto do vigário e levar um tombo feio, existem duas situações que dispensam comentários:

1. Quase sempre quem entra e vira vítima de um conto do vigário está tentando levar alguma vantagem.

2. Depois que virou a vítima, detesta que se comente o acontecido.

Muito semelhante ao atual quotidiano nacional:

1. Fomos vítima de um tremendo estelionato eleitoral. (ainda estamos sendo vítimas)

2. Quem entrou nesta (58.000.000 de pessoas) não gosta de ficar sendo relembrado do fato.

Existem maneiras de não esquecer estes fatos reais, e ainda manter as perspectivas atuais sem se tornar muito pedante e repetitivo.

Resume-se em escrever com bom gosto e picardia, os fatos relacionados aos acontecimentos, reservando aos leitores algo leve, mas real.

Alguns dos jornalistas da atualidade fazem isto com primor e sempre que leio algo nesta ordem procuro publicar, com os devidos créditos obviamente.

Outro dia a minha amiga Ana Maria me presenteou com um excelente artigo.

Compartilho com vocês:

SE O POÇO TIVER FUNDO

TIÃO MARTINS (http://www.revistaencontro.com.br/maio07/artic_tiao.asp)

Vocês não se lembram, porque nem eram nascidos, mas não sai da cabeça o dia em que o arrogante presidente Charles de Gaulle, o grandão que metia medo nos franceses, disse que o Brasil não é um país sério. Não é mesmo, e jamais quis ser.

Como afundar na seriedade um país tão tropical e brasileiro quanto o nosso? Só se a gente fosse um bando de doidos.

Nossos governantes federais são uma comédia. Preferem se espreguiçar mornamente, à beira da lagoa, do mar ou da piscina (os rios andam muito poluídos, ultimamente), enquanto as nuvens correm. Trabalham um dia, folgam no outro e conversam à toa nos demais. Mas adoram os trabalhadores da cidade ou do campo. Quem trabalha e paga impostos então é venerado, pois mantém o embalo da patota.

Quantas dezenas de discursos você já ouviu, elogiando os trabalhadores rurais e urbanos? “São heróis do cotidiano, são símbolos da Nação que trabalha e produz”, trovejam os oradores, nos comícios. Ou, pelo menos, os que sabem falar uma frase inteira, sem trocar o sujeito por aquele indivíduo. Depois, sorvem o uísque, o vinho francês e a companheira da noite, não necessariamente nesta ordem.

E vamos levando, no presente, pois ninguém garante que haverá futuro. Saber levar, empurrar com a barriga, fazer de conta e dar jeitinhos são as bases da cultura nacional.

Enquanto isso, Brasília dorme e os bandidos esperam do lado de fora. Estes, sim, são sérios, planejam, importam o melhor da experiência internacional e não vendem ou compram cadeiras no Congresso Nacional.

Por enquanto.

Brasileiros há mais de 500 anos, admiramos a energia dos alemães, o otimismo dos americanos e a faina formigueira dos japoneses e coreanos, esses incansáveis, mas ninguém aqui quer ser como eles. Basta que nos deixem um pouco de sol, uma bananeira velha para dar frutos e sombra e uma caneca de água fresca.

Mas os políticos são a obra-prima da cultura nacional, síntese do nosso caráter e expressão viva da inteligência brasileira. Quem viu o Lula na casa do Bush sabe disso. Não precisa ver mais nada. Pena que as criancinhas ainda estavam acordadas, quando aconteceu e a TV mostrou.

Quem disser que sou por demais nacionalista, radical e antiquado não entendeu nada. Político brasileiro sempre se deu bem com os ianques. Já beijamos a mão de Roosevelt, fomos comandados por Eisenhower, puxamos o saco de Kennedy, adoramos Carter (aquela tia velha) e abraçamos o canastrão Reagan. Como deixar George W. Bush na chuva e no vento, agora que anda tão sem prestígio? O problema é que os gringos não descansam, e a gente gosta de sossego. Que tomem a terra e bebam a cachaça. Se deixarem a mamona e a mulata já está bom. Mas sem impostos. Afinal, desde que Cabral desembarcou aqui e nos encontrou livres e soltos estamos pagando impostos aos poderosos.

Outro dia, encontrei o William às quatro da tarde. Apesar do nome, não é gringo, mas mineiro de Pirapora, e estava com cara de quem assassinou o chefe.

– Aonde vai, malandro? – perguntei, sutil.

– À piscina, com a gata.

– E amanhã, como será? – insisti, com o ceticismo de decente pai de família.

– Amanhã é outro dia. Se der, vou de novo. Estou pronto para o inesperado.

Bela frase. Mas o William não é sujeito de posses. Vive do salário de assessor de um político. Como pôde financiar as orgias vespertinas?

– Amigo, calculei quanto pagamos de imposto para manter deputados e senadores, ministros e assessores, prefeitos e vereadores. Esse bolo vai dar bolo. Dividi as despesas entre todos nós e concluí que jamais conseguirei pagar minha parte. Sendo assim, antes que me tomem o resto (e a gatinha), passei a mão nela e na grana e vou queimar tudo.

Debaixo do sol. Abracei-o, comovido, e lhe desejei sorte.

Este país é a cara do William.

É melhor mesmo ir gastando assim, ao sol, até que caiam todos no fundo do poço.

Se o poço tiver fundo

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13 Mai 2007 Publicado por Roberto Leite de Assis Fonseca | ARTIGOS, POLÍTICA, ÉTICA | | Sem comentários ainda